Relação entre pesticidas e plantas transgênicas

Vez por outra algum articulista escreve que as plantas transgênicas diminuem o uso de pesticidas, enquanto outros afirmam que aumentam. São afirmações que merecem maior reflexão e aprofundamento.

Durante anos a soja OGM resistente ao herbicida Glifosato era a única representante desta tecnologia. No Brasil, mais precisamente e de forma oficial, desde 1998 quando foi aprovada a soja Roundup Ready. Antes, usava-se a soja Maradona, de procedência irregular da Argentina. O fato é que esta soja não exatamente diminui o uso de pesticidas, tão somente permite a substituição do uso de outros herbicidas. Ou seja, promoveu o aumento do uso de um específico herbicida em detrimento de outros. Foi uma inovadora, inteligente e vencedora maneira de ganhar espaço mercadológico sobre os demais herbicidas. E mais, os agricultores aplaudiram a novidade técnica, que veio facilitar os trabalhos para controlar as ervas daninhas e com economia de custo, uma vez que o Glifosato já estava na categoria de genérico, com concorrência em crescimento.

Essa tecnologia do Roundup Ready da MONSANTO foi estendida para algodão e milho apenas em 2008, aqui no Brasil. Também, em 2007 houve a aprovação do T25 da BAYER, tolerante ao herbicida Glufosinato. Todavia, aos poucos o agricultor perdeu parte dessa economia para o aumento dos preços das sementes, que rapidamente ficaram nas mãos de pouquíssimos fornecedores da tecnologia. E, mais recentemente, algumas plantas infestantes começaram a apresentar resistência ao Glifosato, o que aumenta novamente os custos com a aplicação de outros herbicidas.
Um segundo capítulo começou a ser escrito com o surgimento das plantas transgênicas incorporando determinadas proteínas do Bacillus thuringienshis. Chegaram por aqui em 2005, 2007 e 2010, com a aprovação do Algodão BollGard L MON 531, do Milho YeldGard MON 810 e da Soja Intacta RR2 PRO, respectivamente. Todas da MONSANTO.

Até o momento a CTNBio aprovou as seguintes OGMs contendo tecnologia Bti:

  • ALGODÃO – (a) BollGard I, BollGard II, MON 531 x MON 1445, Bollgard II RR Flex, da MONSANTO; (b) WideStrike, da DOW; e, (c) TwinLink, GlyTol x TwinLink e Glytol x LibertyLink da BAYER.
  • MILHO – (a) YeldGard, Mon 810 x NK 603, Mon 89034, Mon 89034 x Nk 603, Mon 88017 e Mon 89034 x Mon 88017, da MONSANTO; (b) Mon 89034 x Tc 1507 x Nk 603, da MONSANTO/DOW; (c) Bt 11, Mir 162, Bt 11 x Ga 21 e Bt 11 x Mir 162 x Ga 21, da SYNGENTA; (d) Herculex, Herculex x Nk 603 e Herculex x Das 59122-7, da DU PONT/DOW; e, (e) Herculex x Mon 8010 x NK 603, Herculex x Mon 810, da DU PONT.
  • SOJA –Intacta RR2 PRO, da MONSANTO, aprovada em 2010.

Essas sim, vieram para reduzir o uso de inseticidas. E, realmente derrubaram as vendas dos lagarticidas. Apesar de caras, compensam, pois proporcionam redução na compra de inseticidas, diminuição significativa das pulverizações, com economia em mão de obra, menor dano por compressão das máquinas sobre a cultura e menor desgaste dos equipamentos.

De repente, tudo parece ter ido para o espaço com o surgimento em 2012 da Helicoverpa zea, preexistente como praga secundária e já travestida de Helicoverpa armigera. Essa brincadeira com a aparição da H. armigera faz sentido, pois o mistério ainda não foi inteiramente desvendado. Do jeito que está relatado parece uma epifania, ou múltiplas epifanias, já que foi constatada repentinamente em várias regiões na mesma safra. Bom, deixemos isso de lado.

Nesta safra 2013/2014 os agricultores estão reclamando também da lagarta falsa-medideira (Pseudoplusia includens), que os OGMs não estão segurando, etc. Não há ainda investigação suficiente para culpar os OGMs pelo aumento de pragas consideradas antes secundárias. Por ora, temos só suposições.

1ª) Parte dos agricultores não planta as OGM com o a área de refúgio recomendada, que deve ser com sementes convencionais, outra parte não se preocupa em proceder a um manejo adequado das práticas de controle, e isso pode estar acelerando o fenômeno da resistência;

2ª) O ano de 2012 teria sido atípico do ponto de vista climático nas regiões onde apareceu a Helicoverpa, de tal forma que favoreceu a multiplicação de lepidópteros.

3ª) As expressões de genes do Bti variam de uma OGM para outra e é necessário verificar se a acusação de não funcionamento é verdadeira ou não. Na Bahia, em 2012, a maior parte do milho era de Bti apenas com a proteína Cry1F.

4ª) Na soja o emprego de Bti é mais recente e é preciso mais cautela ainda antes de apontar alguma falha na OGM.

5º) Quando é necessário aplicar inseticida, será que todos aplicam até o 2º instar da lagarta? Lagarta maior tem tegumento mais fechado que a protege da penetração dos produtos.

Certo é que a natureza busca caminhos adaptativos os mais insuspeitos frente a novas ações antrópicas. Nem por isso devemos rejeitar a tecnologia transgênica, ela já provou que veio como uma esperançosa ferramenta para auxiliar na preservação das colheitas. E colher mais em uma mesma área é fundamental para diminuir o avanço dos alimentos sobre o restante do meio ambiente. Mas, se a população mundial continuar crescendo, esse avanço será inevitável. Salvo, o surgimento de novas tecnologias ainda não do nosso conhecimento.

FONTE – AENDA