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Adubacao

Corneta do Agro: Adubar sim, mas com inteligência e estratégia

A assessoria de impressa da Embrapa divulgou uma nota que foi reproduzida em vários portais, jornais e revistas ligados ao meio agrícola. Reproduziremos a seguir a nota como publicada no Portal Agrolink, para na sequência apresentarmos o nosso comentário nesta “Corneta do Agro”.

“Para muitos agricultores, nas principais regiões produtoras de grãos do país, o investimento contínuo em adubação a cada safra é sinônimo de altas produtividades. A prática também é responsável por altos custos, já que corretivos e adubos representam 30% ou mais dos gastos em sistemas de produção que envolvem as culturas de soja e milho. A boa notícia é que pesquisadores da Embrapa e de outras instituições de pesquisa comprovaram, em experimentos conduzidos em áreas de produção comercial de grãos, que em muitas situações é possível reduzir ou até mesmo deixar de adubar por algumas safras, sem perdas significativas de produtividade.

“Em solos de fertilidade construída, situação típica da agricultura de alta produtividade na região de Cerrado, é comum que os agricultores continuem adubando com quantidades fixas de nitrogênio, fósforo e potássio por temerem possíveis reduções de produtividade. Esse procedimento pode ser equivocado e levar a perda de competitividade do agricultor”, revela o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas-MG) Álvaro Vilela de Resende, membro da equipe do projeto “Eficiência do uso de fertilizantes e validação de novas tecnologias”, que envolveu diversas Unidades de pesquisa da Embrapa, instituições externas e produtores rurais.

Solo de fertilidade construída é o nome que se dá ao status adquirido em sistemas de produção, principalmente no Cerrado, após investimentos sucessivos em calagem, gessagem e em adubações corretivas e de manutenção com fósforo, potássio e micronutrientes, associados ao estabelecimento do sistema plantio direto, que mantém ou aumenta o estoque de matéria orgânica no solo.

Com o manejo ao longo das safras, esses solos passam a apresentar condições físicas, químicas e biológicas adequadas para as culturas expressarem melhor o seu potencial produtivo. “Apesar de o nível de fertilidade do solo ser alto ou até muito alto, é comum que os agricultores continuem adubando. Essa prática tem resultado em adubações desnecessárias ou superdimensionadas, com baixa eficiência de uso dos fertilizantes”, cita um trecho do artigo “Adubação, produtividade e rentabilidade da rotação entre soja e milho em solo com fertilidade construída”, publicado na revista PAB (Pesquisa Agropecuária Brasileira), editada pela Embrapa.

Experimento conduzido em área de produção comercial de grãos

A equipe de pesquisadores conduziu o experimento em uma fazenda localizada em uma região produtora de grãos no noroeste de Minas Gerais, cujo solo vem sendo cultivado há 15 anos em sistema de plantio direto com fertilidade considerada de adequada a alta para a região do Cerrado. Três cultivos de verão, em condições de sequeiro, na sequência de rotação soja/milho/soja, foram avaliados, sendo deixada uma área controle com o manejo de adubação utilizado normalmente pelo agricultor. As demais doses das adubações incluíram quantidades de fertilizantes abaixo e acima das empregadas pelo agricultor. As adubações de semeadura foram realizadas no sulco, via semeadora, e as aplicações em cobertura foram feitas manualmente, com filete de adubo nas entrelinhas.

Na primeira safra, foi semeada uma cultivar precoce de soja RR, com estande de 380 mil plantas por hectare. O segundo plantio foi feito com um híbrido simples de milho, com 68 mil sementes por hectare. E, por fim, na última safra, usou-se uma cultivar precoce de soja RR com estande de 280 mil sementes por hectare.

Após a análise dos dados de produtividade, os pesquisadores concluíram que “nesses casos de elevada fertilidade do solo, a adubação de manutenção com quantidades que apenas reponham a exportação nos grãos constitui o manejo mais racional, uma vez que os nutrientes aplicados e não absorvidos pelas plantas podem ficar sujeitos a processos de perdas no sistema”.

Outros resultados importantes obtidos foram que “a soja não respondeu às adubações NPK de semeadura ou de cobertura potássica, em nenhuma das safras” e que “a produtividade do milho (safra 2011/2012), no entanto, respondeu tanto à adubação NPK na semeadura como à cobertura nitrogenada, o que confirma a maior responsividade dessa cultura à adubação”.

Os pesquisadores interpretam que “a ausência de resposta da soja e a resposta relativamente baixa do milho à adubação são indícios de que o solo, de fato, apresentava grande reserva de nutrientes, e de que é possível diminuir a quantidade de fertilizantes aplicados no solo avaliado. Portanto, a adubação com quantidades fixas de N, P e K não parece adequada para o manejo do sistema de produção de soja e milho em solos com esse padrão de fertilidade. Para otimização do dimensionamento das adubações é preciso investir em monitoramento do solo ao longo do tempo, ajustando o fornecimento de cada nutriente de forma individualizada, de acordo com um diagnóstico periódico da condição de fertilidade na lavoura”.

Conclusões contundentes

O artigo publicado revela ainda que alguns autores sugerem que culturas mais responsivas, como a do milho, deveriam ser adubadas mais intensamente, enquanto as menos responsivas e de maior plasticidade, como a da soja, poderiam ser cultivadas apenas com a adubação de arranque e com a adubação residual da cultura anterior. Paradoxalmente, não é esta a constatação mais comum no campo. No estudo de caso relatado no artigo, a adubação otimizada representaria uma economia expressiva no uso de fertilizantes. “A dose de fertilizante normalmente utilizada na fazenda para a adubação de semeadura do milho (359 kg/ha) poderia ser reduzida em 47 kg/ha (13%), uma vez que a dose de máxima eficiência econômica foi de 312 kg/ha. Além disso, a adubação de cobertura nitrogenada poderia ser reduzida de 350 kg/ha para 263 kg/ha, ou em 25%. A soja, por sua vez, dispensaria adubação”.

Portanto, de acordo com o pesquisador Álvaro Resende, o agricultor deve seguir estratégias como o monitoramento do solo e ter conhecimento das taxas de exportação de nutrientes pelas colheitas das culturas e avaliar o balanço de nutrientes no sistema para depois definir a necessidade de adubação. “Essas estratégias, relativamente simples e que podem ser incorporadas à rotina das fazendas, são decisivas quando se busca eficiência de gestão para maior competitividade na produção de grãos, com ganho de rentabilidade”, diz. Ainda segundo ele, o monitoramento do sistema de produção por meio de análises de solo e a avaliação econômica realizada nos estudos conduzidos até agora indicam a necessidade de se reavaliar o manejo da adubação em solos de fertilidade construída, visando o uso mais eficiente de fertilizantes.”

Nosso comentário:

Apesar da conclusão do estudo levar ao fato que as adubações em culturas nem sempre são necessárias, o trabalho dos pesquisadores apenas conclui o que é obvio na fundamentação científica do conhecimento de fertilidade de solos.

Nós da Laborsolo batemos há anos nesta tecla com palavras ao vento, uma vez que, poucas pessoas nos dão ouvidos. Mas agora a conclusão do trabalho publicado em revista de cunho cientifico, Pesquisa Agropecuária Brasileira, da EMBRAPA, coloca o caso numa visão mais abrangente, pois as conclusões partem de um estudo feito por pesquisadores de uma renomada Universidade no meio agronômico, a UFLA e a EMBRAPA.

No entanto, se os pesquisadores levassem em conta o que já se sabe sobre fertilidade de solos estes experimentos seriam desnecessários, pois suas conclusões são óbvias.

Há anos defendemos uma Agronomia que pratique uma agricultura de diagnósticos. Para tanto, existe ferramentas como as análises de solos e de tecidos, que trazem informações importantes para se obter melhores resultados das lavouras sem se levar em conta apenas o consumo de fertilizantes e defensivos. Resta, no entanto, saber diagnosticar, fato este não levado muito a sério pela comunidade agronômica.

Vamos aos fatos concretos.

Na vida prática, no dia a dia, os agricultores fazem suas adubações por meio de “adivinhações” e por motivo cultural, ou seja, “se não adubar não produz”. Veja que este fato não é apenas por sua culpa, é que o comércio de fertilizantes propõe estas barbaridades. Um ano antes das safras os agricultores já adquirem os insumos, pois a pressão dos mercados impõe esta prática. Coloca-se aos “quatro ventos” que os preços dos fertilizantes vão subir, que o dólar vai aumentar e assim deve-se adquirir a maior quantidade possível para aproveitar os preços.

Aqui no Paraná, uma grande cooperativa de produtores só dá descontos em defensivos agrícolas como fungicidas, por exemplo, se o agricultor comprar os fertilizantes. Se não adquirir adubos, “neca” de descontos nos venenos. O agricultor ignorante (no sentindo de não saber se precisa ou como negar) adere a esta imbecilidade, com medo de ficar sem a “assistência” da cooperativa, aproveita os descontos e sai a adubar sem a mínima necessidade. A necessidade é do mercado e não dos solos.

Primeiro ponto a se perguntar: Quantos agricultores que são assistidos pela tal “Assistência Técnica” fazem análises de solos para saber a real necessidade das adubações?

A resposta é: Poucos. Ressalta-se ainda que muitos que fazem as análises o fazem para cumprir burocracias do Banco do Brasil e outros, que exigem a tal análise. Na verdade, não exigem análise, exigem sim um laudo para colocar no prontuário do incauto para encher arquivo, pois se este servisse para alguma coisa não se adubaria tanto. O próprio banco favorece este mercado financiando as adubações desnecessárias.

Sem medo de errar, diríamos que 50% das áreas no Paraná poderiam ficar algumas safras sem potássio e fósforo. Para piorar a situação agora está surgindo conversas sobre a adubação nitrogenada em soja. (Já escrevi um artigo sobre o assunto para a Revista Doutores da Terra, se ainda não leu, esta é uma oportunidade: clique aqui.)

Quando o agricultor faz análises de solos busca uma informação ou um laudo? A maioria quer um laudo, pois caso lá na frente haja algum problema de Proagro, por exemplo, o sujeito tem um papel para mostrar para o fiscal.

Aí a EMBRAPA juntamente com várias Universidades, e outros Institutos de Pesquisa país afora, além de uma penca de Fundações de Produtores que fazem pesquisa, prestam um desserviço à classe agronômica publicando os famigerados Boletins de Pesquisa. Os tais boletins, dizem eles, servem para orientar a classe agronômica e também os produtores acerca das tecnologias usadas no mercado e testadas por estas instituições. Ocorre que estes boletins servem também para orientar os Bancos que operam o Crédito rural e se lá estiver escrito que tem que se adubar com a fórmula X, e se por acaso, o agrônomo que faz o projeto não recomendar a tal formula X, sua interpretação não tem o mínimo valor. O projeto é recusado e se porventura ocorrer um sinistro, o fiscal, também ignorante e podendo usar de má fé, para não pagar o sinistro, exige o laudo de adubação e se lá não estiver escrito a tal formula X. Meu amigo! Babau! Tá tudo perdido!

– “O senhor não colheu porque não adubou.” – Será a palavra do fiscal.

Ora, se é assim, para que servem as conclusões dos nobres pesquisadores da EMBRAPA e UFLA?

As suas conclusões servem apenas para a área onde fizeram os ensaios, assim como as Fundacões espalhadas pelo país. Seus ensaios e conclusões servem apenas nos locais onde foram realizados, não servem para fazer recomendações.

Portanto, o que se constata no dia a dia é que as adubações não são levadas a sério e o país, que é importador de fertilizantes, gasta milhões de dólares de suas reservas importando fertilizantes, onde grande parte é desnecessária por conta de uma classe agronômica desinformada que se atualiza em churrascos e reuniões de empresas que comercializam fertilizantes. Para piorar, a literatura que tem acesso são folhetos de propaganda e Boletins de Pesquisa das Fundações de Produtores e Cooperativas, algumas com interesses comerciais nos tais fertilizantes (porque as empresas que se submetem aos testes tem que pagar por estes ou porque comercializam tais produtos).

Como já está tudo testado, aprovado e recomendado, não é de se estranhar o baixo apelo das análises de solos. Grande parte serve para alimentar os interesses dos fornecedores de fertilizantes, outra parte para atender os interesses do Crédito rural, parte serve para confeccionar mapas e mais mapas para agricultura de precisão e apenas uma pequena parte serve para sua mais nobre finalidade que seria diagnosticar o “paciente” e fornecer uma recomendação segura e eficiente para que se tenham melhores safras num sistema mais sustentável.

Para a classe agronômica que trabalha na área de fertilidade sugerimos estudar mais, dominar a interpretação das análises, se informar nos livros, com o objetivo de usar esta ferramenta com mais eficácia, pois é na adubação que se encontra a chave do sucesso para se auferir lucro das lavouras de forma eficiente, científica e sustentável.

Dr. José Carlos Vieira de Almeida

Eng. Agrônomo Dr. José Carlos Vieira de Almeida – Doutor em Agronomia. Ex-docente na Universidade Estadual de Londrina e sócio da Laborsolo Laboratórios, especialista em Fisiologia Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: Manejo e controle de plantas daninhas e nutrição de plantas.

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