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Etanol Canavial No Limite

Carta Aberta ao Deputado Arnaldo Jardim – Etanol e canavial no limite

A carta aberta a seguir se refere a opinião do Exmo. Sr. Deputado Arnaldo Jardim (PPS/SP) – Presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Infraestrutura Nacional disponível em seu site (clique aqui para ler).

V.Exa. Arnaldo Jardim
Deputado Federal (SP)

Quero parabenizar o Exmo. Sr. Deputado Arnaldo Jardim, ao mesmo tempo em que me solidarizo com as atitudes reivindicatórias para o setor de bioenergia, especificamente na matéria intitulada: “Etanol e Canavial no limite”, nos parágrafos onde são destacadas as seguintes frases:

  1. “A situação atual da nossa lavoura canavieira é dramática – a situação de 70 mil fornecedores de cana-de-açúcar do país é quase terminal”.
  2. “O aumento dos custos de produção de etanol e açúcar, onde a parcela agrícola beira os 70%, torna o lento crescimento de produtividade dos canaviais ainda mais preocupante”.
  3. “O setor sucroenergético é forte indutor de progresso para os municípios. Dele dependem milhares de brasileiros que contribuem também para um País melhor. E esses brasileiros estão dizendo ao governo que chegaram ao limite, devem passar a falar mais alto, mais claramente e passar a se mobilizar para garantir que a lavoura canavieira e o nosso etanol não sucumbam”.

Saiba Exmo. Sr., que como profissional da área Agronômica tenho me dedicado, há mais de trinta anos, à cultura da cana-de-açúcar, ensinando na disciplina de Energia Renovável do curso de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina – UEL e, na iniciativa privada, possuo uma empresa, a Laborsolo do Brasil S/S Ltda, onde desenvolvemos estudos de manejo da Fertilidade dos Solos e da Nutrição Vegetal, com foco econômico e tecnológico na lavoura canavieira. Portanto, Exmo. Sr. Deputado, sei, exatamente, do risco que a referida matéria tenta alertar, razão pela qual estou lhe escrevendo para me manifestar, talvez, para “ouvidos” voltados com atenção política para o setor, porque para àqueles ligados, diretamente, na produção, não temos logrado êxito.

Vamos aos fatos:

Entrei em alerta vermelho, quando ouvi pessoas experientes ligadas ao setor dizer da necessidade de renovar os canaviais, pois, os mesmos estariam velhos.

Ora, Exmo. Sr. Deputado, qualquer profissional com um mínimo de experiência com cana-de-açúcar deveria saber que, por estratégia de sobrevivência da planta, a cada perfilho que a cana emite, novas raízes são formadas para garantir o desenvolvimento daquele colmo, com água e nutrientes. Dessa forma, a cada ciclo de corte o sistema radicular é renovado continuamente, assim, anualmente ter-se-á novos colmos e novas raízes. Disso resulta o absurdo de ouvirmos que os canaviais estão velhos, pois velho está o solo, com o esgotamento natural dos nutrientes retirados em cada corte. Então na realidade, há um empobrecimento da Fertilidade do solo com reflexos diretos na produtividade, na qualidade e no rendimento econômico da atividade.

O buraco é mais embaixo!

O sucesso de um Agronegócio, começa no campo. Explico melhor:

Se para fazer um bolo é necessário seguir uma receita, onde todos os ingredientes essenciais, não podem faltar, da mesma forma, para fazer cana-de-açúcar há uma receita de ingredientes essenciais, sendo proibido substituí-los ou negligenciá-los. A saber:

RECEITA SUFICIENTE E NECESSÁRIO PARA SE PRODUZIR 100 TCH (tonelada cana por hectare).

Parâmetro Quantidade diária/ha
Água (H2O 500L
Carbono (CO2) 107Kg
Nitrogêneo (N) 800g
Fósforo (P) 80g
Potássio (K) 700g
Cálcio (Ca) 500g
Magnésio (MG) 250g
Enxofre (S) 240g
Boro (B) 1,6g
Cobre (Cu) 1,5g
Ferro (Fe) 45g
Manganês (Mn) 14g
Zinco (Zn) 3,6g

Como se vê, são fatores invisíveis e que determinam a produção. Se fazer um bolo, seguindo uma receita pré-disponível, é difícil garantir a qualidade do produto final, imagine tentar monitorar a natureza para disponibilizar, exatamente, os fatores de produção, os quais podem ser reunidos em três grupos:

  1. Água » 74,5% da cana,
  2. Carbono » 20% da matéria seca da cana.
  3. Minerais » 5,5% da matéria seca da cana.

O que queremos da cana é o caldo e o açúcar [Sacarose (C12H22O11)] mas antes é, preciso obter a planta + raízes, um verdadeiro arcabouço carbônico, resultado da fotossíntese. Estamos falando indiretamente do fenômeno da fotossíntese, que é quem paga a conta. Portanto Exmo. Sr. Deputado, qualquer medida reivindicatória para alavancar o setor sucroenergético, será em vão, se mudanças não forem tomadas na conduta Agronômica, ou seja, praticar procedimentos agrícolas sem antes obter um diagnóstico, através de análises Físico-químicas do ambiente de produção – solo e diagnose foliar para suplementação de elementos limitantes.

Isso tudo esta em acordo com um famoso ditado: “tudo que se mede, pode-se melhorar”. Como nessa atividade nada é medido ou analisado, o que esperar? Ainda mais sabendo que a cada corte há um esgotamento de minerais do solo, retirados juntamente com a cana que vai para a Usina.

Como sabemos, mineral é um recurso esgotável, não se renova, há que se fazer reposição para restabelecer outra condição de produção, razão pela qual, não existe Energia Renovável, pois a nível de propriedade a produção é esgotável!! Mais atenção tem que ser dispensada ao solo para continuar restabelecendo, sempre, sua produtividade. É ai que se encontra o gargalo da produção agrícola em especial o Agronegócio: cana-de-açúcar. Temos, urgente, que abandonar nosso sistema de produção, através de recomendações positivistas que privilegiam só o comércio de insumos, não contribuem em nada com a saúde vegetal e, adotarmos uma nova postura de procedimentos calcados em diagnósticos de manejo. É uma questão de inteligência competitiva, pois temos perdido esse comportamento ao longo dos anos, em detrimento das leis do comércio.

Não temos tido sucesso em implantar essa mentalidade na área agrícola das usinas, pois além de provocar mudanças na zona de conforto dos responsáveis técnicos, temos que competir com a chamada tecnologia disponível que já esta implantada e é totalmente corrupta e corrompível, pois os valores financeiros envolvidos são surpreendentes.

A saída, a meu ver, seria a contratação de risco dos responsáveis técnicos, onde seriam remunerados por produtividade, ou um política de incentivo para a criação de empresas prestadoras de serviços agronômicos, a fim de favorecer a busca constante dos profissionais envolvidos, por capacitação e treinamento técnico, pois é no campo que se fabrica o açúcar. O compromisso, a motivação, a ética e a responsabilidade técnica, falará mais alto quando contratos e concorrências estão em “jogo”. Do contrário, vamos continuar assistindo um desastre pré-anunciado, não porque os assalariados não tenham competência e responsabilidade, mas porque, normalmente ocorre o subemprego, e nessa condição, para alguns, a atratividade e assedio das “propinas” continuarão destruindo o setor.

Dr. Roberto Antunes Fioretto

Eng. Agrônomo Dr. ROBERTO ANTUNES FIORETTO – Doutor em Agronomia. Ex-docente na Universidade Estadual de Londrina e sócio da Laborsolo Laboratórios, especialista em Fertilidade de Solo e Nutrição de Plantas, atuando principalmente nos seguintes temas: calagem, bases trocáveis, equilíbrio químico, adubação e cátions básicos.