Londrina (43) 3338.5738
Toledo (45) 3378.1202
Passo Fundo (54) 3315.7604
Ovos Bacon Soja Cana

Corneta do Agro: Parceria Cana e Soja funciona mesmo ou é uma parceria “ovos com bacon”?

Recentemente foi publicado uma notícia na imprensa especializada com a chamada:”Em parceria com cana, área de soja poderia dobrar em São Paulo”. Veja o artigo:

Sai a cana-de-açúcar e entra a soja no Estado de São Paulo. Essa já é a realidade em 333 mil hectares de canaviais, com potencial de atingir 1 milhão de hectares nos próximo anos. A projeção, do pesquisador Denizart Bolonhesi, do IAC (Instituto Agronômico de Campinas), foi apresentada no 8º Congresso Brasileiro da Soja, encerrado nesta quinta-feira (14/6) em Goiânia. O evento foi organizado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Com o avanço da soja sobre a cana, a área total do grão no Estado quase dobraria, passando de 856 mil hectares (dados de 2017 do Instituto de Economia Agrícola) para cerca de 1,5 milhão. Mas, não se trata de uma troca de cultura e sim de uma parceria.

“O sojicultor de São Paulo tem como fronteira agrícola a renovação dos canaviais e nessa parceria ganham os produtores dos dois lados e também a economia local”, diz o pesquisador.

A renovação dos canaviais ocorre idealmente após cinco cortes, quando a produtividade fica abaixo de 60 toneladas por hectare, mas, com investimento em novas variedades e técnicas, alguns produtores e usinas já conseguem prolongar a vida útil do canavial por até sete cortes. Devido à crise que atingiu o setor sucroalcooleiro nos últimos anos, a taxa de renovação anual dos 5,9 milhões de hectares de cana plantados em São Paulo é de apenas 8%, quando o ideal seria 20%.

“Muitas áreas de renovação acabam ficando em pousio porque o custo de reforma do canavial atinge R$ 7 mil por hectare.”

Além da soja, produtores de cana têm como opção para a renovação das áreas o plantio de adubos verdes ou amendoim, mais indicado para terras menos férteis e rústicas.

No passado, algumas usinas se tornaram também produtoras de soja, mas o modelo mais usado atualmente pelos grandes grupos e produtores é entregar a área de renovação de cana para a entrada dos sojicultores com seu maquinário e conhecimentos específicos da cultura. Em média, o dono da terra recebe 10% da produção de soja. Nas contas do pesquisador, se a soja não produzir mais de 50 sacas por hectare, o produtor de cana leva prejuízo.

Além da renda extra vinda da commodity soja, o produtor de cana tem vários outros benefícios na associação com os grãos, segundo Denizart. “A soja constrói a fertilidade do solo, elevando o nível de nitrogênio e ajudando no controle dos nematóides. Pesquisas já identificaram que o canavial produz mais quando a área é ocupada antes pela soja.”

O pesquisador elenca as barreiras que precisam ser vencidas para se chegar ao 1 milhão de hectares de soja em canaviais. “Para ser bem-sucedida, a parceria exige investimento, planejamento profissional, regras claras em contrato e conhecimento dos dois lados para que uma cultura não atrapalhe a outra ou eleve os custos de produção.”

Além da renda extra vinda da commodity soja, o produtor de cana tem vários outros benefícios na associação com os grãos, segundo Denizart. “A soja constrói a fertilidade do solo, elevando o nível de nitrogênio e ajudando no controle dos nematóides. Pesquisas já identificaram que o canavial produz mais quando a área é ocupada antes pela soja.”

O pesquisador elenca as barreiras que precisam ser vencidas para se chegar ao 1 milhão de hectares de soja em canaviais. “Para ser bem-sucedida, a parceria exige investimento, planejamento profissional, regras claras em contrato e conhecimento dos dois lados para que uma cultura não atrapalhe a outra ou eleve os custos de produção.”

Mas será que essa “parceria” funciona mesmo? Ou é mais uma parceria de ovos com bacon?

Todos nós somos conhecedores da necessidade dos minerais essenciais para completar o ciclo de vida, tanto no reino animal como no reino vegetal. Sendo assim, tanto a cana-de-açúcar como a soja necessita da presença e disponibilidade desses nutrientes essenciais no solo. Para efeito de comparação dessa demanda entre as duas culturas, vale salientar que a cana-de-açúcar, por ser uma planta perene, possui uma demanda diária por nutrientes muito menor do que a soja, que é uma planta anual e, portanto, tem que absorver toda a sua demanda num menor espaço de tempo.

Comparando ambas as demandas diárias, o Quadro 1 abaixo nos mostra, para os macronutrientes, a quantos dias de consumo da cana equivale um dia de consumo da soja.

Quadro 1. Número de dias de consumo de macronutrientes pela cana-de-açúcar equivalente a um dia de consumo da soja.

Quadro 1. Número de dias de consumo de macronutrientes pela cana-de-açúcar equivalente a um dia de consumo da soja.

 

Considerando agora um ciclo de absorção de, aproximadamente, 100 dias pela cultura da soja, e exportações aproximadas da ordem de P = 70%, K = 59%, Ca = 23%, Mg = 32% e S = 38% do que ela absorve, podemos calcular o número de dias de absorção que, teoricamente, a soja “roubaria” da cana-de-açúcar, podendo provocar déficits ou desequilíbrios na nutrição desta que é a cultura principal da área (Quadro 2), principalmente em relação a fósforo e enxofre, cujos números são mais robustos.

Quadro 2. Número de dias de consumo de macronutrientes “roubados” da cana-de-açúcar pela soja.

Quadro 2. Número de dias de consumo de macronutrientes “roubados” da cana-de-açúcar pela soja.

 

Se o 5º corte de cana apresenta uma produtividade insatisfatória (abaixo de 60 TCH), é porque a fertilidade do solo já está comprometida para atender a demanda da própria cana-de-açúcar.
Tecnicamente a taxa de renovação dos canaviais deveria estar em 20% da área em produção comercial e, segundo o texto, é de apenas 8%. Logicamente isso tem reflexos diretos na produtividade e na Fertilidade do Solo que fica cada vez mais ácido e com menos bases nutrientes.

De acordo com o texto, muitas áreas no estado de SP, ficam em pousio, devido ao custo da reforma do canavial (R$ 7 mil/ha). Com essa conduta, imagine a importância que se dá para os nutrientes essenciais, pois se a cana necessita de reforma, é porque a fertilidade do solo “já era”. Assim, realizar novos investimentos, nessa área, para plantar soja é perder 2 vezes.

Ledo engano imaginar que a soja pode construir a fertilidade do solo apenas por favorecer a Fixação Biológica do Nitrogênio.

Quando se almeja produtividade de cana-de-açúcar de 3 dígitos, essa prática deve ser repensada. No mínimo deve-se intensificar o diagnóstico da fertilidade do solo e a diagnose foliar, afim de que essa parceria soja-cana não se torne uma nefasta parceria “ovos com bacon”.

Assim, embora a usina possa se beneficiar financeiramente do arrendamento na entressafra, biologicamente falando, a única vantagem para a cana neste processo seria de alguma forma se beneficiar da soja caso a adubação desta cultura forneça nutrientes para sua manutenção e para sobrar para a cana.

Isto só seria viável numa parceria bem formatada entre a usina e o sojicultor, registrando-se, por exemplo, em contrato, o status da fertilidade do solo antes e depois da soja, a exemplo do que faz o IQS (Índice de Qualidade do Solo).

 

Foto da chamada:FREITAS, Pedro Luiz de. Implantação da cultura de soja na reforma de canavial em plantio direto na palhada de cana com colheita mecanizada. Banco de Imagens da Embrapa.

Dr. Roberto Antunes Fioretto

Eng. Agrônomo Dr. ROBERTO ANTUNES FIORETTO – Doutor em Agronomia. Ex-docente na Universidade Estadual de Londrina e sócio da Laborsolo Laboratórios, especialista em Fertilidade de Solo e Nutrição de Plantas, atuando principalmente nos seguintes temas: calagem, bases trocáveis, equilíbrio químico, adubação e cátions básicos.

Este post tem um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *