Lodo Esgoto

Lodo de esgoto como fertilizante orgânico: veja a reflexão do Dr. Vieira!

Recentemente foi divulgada a seguinte notícia em vários meios de comunicação:

A Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) e a Emater (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural) assinaram nesta quinta-feira (29) parceria para desenvolver um plano de trabalho para ampliar a destinação de lodo de esgoto para a agricultura.

O evento aconteceu na Unidade de Referência Tecnológica (URT) da Família Sussai, propriedade rural que tem usado o lodo de esgoto no cultivo de café e que se tornou modelo na região de Santa Fé, Noroeste do Paraná. Estavam presentes agricultores do Norte e Noroeste do Estado, representantes de órgãos estaduais, prefeitos, vereadores e deputados.

O projeto será desenvolvido no âmbito do Programa Integrado de Conservação de Solo e Águas do Paraná, com apoio do Governo do Estado. O objetivo é ampliar a divulgação e o cadastro de agricultores interessados em utilizar o lodo de esgoto gerado nas Unidades de Gerenciamento de Lodo (UGL) distribuídas pelo Estado. Todo o trabalho técnico junto aos agricultores será desenvolvido pelos profissionais da Emater.

“Com o apoio da Emater, a Sanepar vai conseguir atender um número maior de propriedades rurais, beneficiando muitos agricultores em todo o Estado”, afirma a diretora de Meio Ambiente da Sanepar, Fabiana Campos. Ela destacou que transformar o lodo, que é um passivo ambiental, em importante ativo, como o adubo, traz um ganho para todos. “Ganha o agricultor, com redução de custo e aumento de produtividade; ganha a Sanepar, que não envia esse passivo para os aterros sanitários; e ganha o meio ambiente”, disse.

O gerente de operações da Emater na Macrorregião Noroeste, José Francisco Lopes, afirma que a parceria com a Sanepar é importante para a melhoria de vida dos agricultores. “Vamos levar um adubo de qualidade que vai contribuir para melhorar a produtividade da lavoura e as condições de vida dos produtores”, disse.

Entre as atividades a serem implementadas pela Emater estão a promoção de reuniões de esclarecimento em entidades municipais, reuniões técnicas, encontros e dias de campo para cadastro de agricultores, implantação de unidades demonstrativas em eventos agropecuários e avaliação de produtividade em áreas que utilizam lodo de esgoto.

LODO – A Sanepar começou as pesquisas para uso do lodo de esgoto na década de 1990 e, desde 2007, mais de 280 mil toneladas do produto já foram aplicadas em terras paranaenses. Chamado também de biossólido, o lodo é cedido gratuitamente, fertiliza o solo e corrige o pH, contribuindo para o aumento da produtividade e reduzindo o custo da produção.

A Sanepar possui Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs) em 181 municípios e 41 Unidades de Gerenciamento de Lodo (UGLs), que fazem processamento, monitoramento e destinação do lodo de esgoto para aplicação nas áreas agrícolas. O programa promove maior sustentabilidade no saneamento, proporciona a reciclagem da matéria orgânica e de nutrientes e reduz a destinação deste resíduo para aterros sanitários.

Somente em 2017 as unidades da Sanepar produziram 16.850 toneladas de lodo. Foram elaborados, pelos técnicos da Sanepar e do Emater, 120 projetos agronômicos, beneficiando mais de 70 agricultores, abrangendo uma área de 1.800 hectares em todo o Estado. Maringá foi a cidade que mais destinou lodo de esgoto no último ano. Foram 4.540 toneladas, equivalente a 27% de todo o lodo entregue no Paraná em 2017.

Nosso comentário

Na verdade, o lodo de esgoto doméstico ou o chamado biossólido é um resíduo do tratamento bioquímico do esgoto.  Este resíduo, que sobra do tratamento, é um passivo ambiental que a Sanepar e outras empresas de saneamento não tem onde descartar e, assim, decidiu-se descartá-lo nas áreas agrícolas.

Até aí, tudo bem.  É um resíduo que se tratado e, biologicamente inativado, pode ser usado no solo para sua decomposição.  Isto posto o Ministério de Meio Ambiente desenvolveu mecanismos para normatizar esta prática através da Resolução 375 que pode vista no link abaixo:

http://www2.mma.gov.br/port/conama/res/res06/res37506.pdf

Assim, sugere-se a quem tiver interesse neste assunto, que leia na integra a resolução 375 para saber do que se trata e o que deve ser respeitado antes de se fazer uma reportagem como esta.

Aliás, tudo que é resíduo costuma-se jogar no solo para decomposição.  O solo e o “grande lixão” do mundo.  Quando não se sabe o que fazer com alguma coisa. Enterre-a.

Agora vir dizer que a utilização do lodo e a salvação da agricultura do noroeste do Paraná, que é um ótimo fertilizante, que aumenta o pH do solo e que vai contribuir para o aumento da produtividade já e um exagero!  conforme escrito na matéria “ Chamado também de biossólido, o lodo é cedido gratuitamente, fertiliza o solo e corrige o pH, contribuindo para o aumento da produtividade e reduzindo o custo da produção”

Estas afirmações são na verdade falaciosas.  O que a Sanepar fez neste tempo todo de pesquisa foi dar um jeito de se livrar do resíduo, o que aliás é seu papel, mas vamos com calma!   Diz que será cedido gratuitamente, só faltava cobrar para se livrar do lixo, aliás lodo.

Daí a reportagem diz:

“Com o apoio da Emater, a Sanepar vai conseguir atender um número maior de propriedades rurais, beneficiando muitos agricultores em todo o Estado”, afirma a diretora de Meio Ambiente da Sanepar, Fabiana Campos. Ela destacou que transformar o lodo, que é um passivo ambiental, em importante ativo, como o adubo, traz um ganho para todos. “Ganha o agricultor, com redução de custo e aumento de produtividade; ganha a Sanepar, que não envia esse passivo para os aterros sanitários; e ganha o meio ambiente”, disse.

Como que se livrando de lodo pode beneficiar agricultores?  Como isto pode ser considerado um ativo que traz ganhos para todos?  Como pode a Sanepar garantir aumento da produtividade com este resíduo?  Ah, agora sim.  Ganha a Sanepar que não tem o que fazer com isto e não envia para o aterro que tem um custo alto.

Gostaria de saber: qual é o ganho para o meio ambiente?

O que é o meio ambiente?  O mais importante de tudo é o solo.  É do solo que saem os minerais para as plantas e que dá sustento ao planeta.  Por que, maltrata-lo tanto?

O lodo de esgoto é um resíduo orgânico que contém uma série de elementos químicos não disponíveis (já que é orgânico) e vai ter de sofrer um processo de mineralização para libera-los.

Tudo que é orgânico não tem controle de qualidade.

A Sanepar não tem como garantir as disponibilidades de nutrientes.  Outra coisa a se considerar é o tratamento para inibir a presença de ovos de helmintos, nematoides, coliformes de todas as ordens e vírus enterogênicos que estão presentes em esgotos.  Quem vai garantir isto?   Quem vai garantir a ausência de metais pesados?  Lota a lote?

Além disso para uso agrícola deve-se conhecer a composição química do lodo, ou pelo menos analisa-lo, para poder garantir a eficiência agronômica.

Outra coisa que deveria ser considerada, conforme a Resolução CONAMA 375: Deve-se evitar usar estes resíduos em lavouras de hortaliças que são consumidas in natura, o que não é revelado na reportagem.  Pela reportagem: Pode tudo.  O lodo e uma maravilha.

Portanto, mais uma vez, temos um “produto para a salvação da lavoura” e revolucionar a agricultura paranaense, inclusive com aval da Emater.

Pensem bem!

E se for utiliza-lo, no mínimo faça uma análise de fertilizante orgânico antes!

Dr. José Carlos Vieira de Almeida

Eng. Agrônomo Dr. José Carlos Vieira de Almeida – Doutor em Agronomia. Ex-docente na Universidade Estadual de Londrina e sócio da Laborsolo Laboratórios, especialista em Fisiologia Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: Manejo e controle de plantas daninhas e nutrição de plantas.

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