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Sementes Precoces

O risco do negócio ou um negócio de risco?

Produtores de sementes do Paraná comentam que a procura dos agricultores por cultivares de soja de ciclo rápido tem aumentado. Isso possibilitaria uma colheita precoce e a semeadura de safrinha, fato que já podemos visualizar no campo, pois foi possível observar a colheita da safra de verão já no final de janeiro, entrando fevereiro já com o plantio da safrinha. O que mudou nesta safra 2014 é que o baixo preço do milho e do feijão estão levando muitos agricultores a procurar cultivares de soja para a safrinha.

Para os produtores de sementes de soja, a época é propícia para a produção do insumo, já que, dessa forma, reduz-se o tempo de armazenamento das sementes até a próxima semeadura.

Segundo o engenheiro agrônomo Airton Cittolin, a escolha de cultivares de soja precoce permite o plantio de verão no final de setembro, da safrinha no fim de janeiro, e a semeadura do trigo em maio.

De acordo com Victor Sommer da Fundação Pró-sementes, as plantas dessa cultivar costumam apresentar alta concentração de vagens no topo e elevado índice de vagens com quatro grãos, sendo, por isso, um material com alto potencial produtivo.

De acordo com Cittolin, quando semeada, no final de setembro, a variedade apresenta ciclo de 110 dias, do plantio a colheita. Na safrinha, é ainda mais rápida, de 100 a 105 dias. Para o plantio em setembro, a recomendação é adensar a semeadura, utilizando 18 plantas por metro linear.

Fonte: FUNDAÇÃO PRÓ-SEMENTES – Via RuralBR

Nosso comentário:

Quando se produz uma lavoura dentro dos preceitos da boa engenharia agronômica, usando as técnicas agrícolas adequadas tanto no que concerne ao manejo dos solos e das plantas, bem como, levando-se em consideração a fisiologia e a biologia, não somente a economia, tenta-se obter uma máxima resposta das plantas que, em última análise, se tudo correr bem, levará à maximização das produtividades. No entanto há riscos, que se considerarmos as premissas agronômicas de medições e acompanhamento dos eventos, podem ser monitorados e quem sabe minimizados. Assim, os riscos são inerentes ao negócio. A agricultura é feita a céu aberto. Alguns fatores são incontroláveis como chuvas, por exemplo, e isto pode levar ao insucesso. Este é o Risco do Negócio.

No entanto, quando nos deparamos com notícias como esta, que os agricultores estão a fim de mudar a fisiologia, a genética, a biologia, a química e quem sabe até o clima, aí entra em ação o negócio de risco.

O pior: um Engenheiro Agrônomo propõe que a escolha de cultivares de soja precoce permite o plantio de verão no final de setembro, da safrinha no fim de janeiro, e a semeadura do trigo em maio. Será que dá tempo de plantar um rabanete neste espaço? Pois este é bem precoce.

O que se está tentando fazer com os recursos naturais? Será que os produtores ainda não se deram conta que o sistema de produção não é milagroso? Que o solo não é inesgotável? Por que esta necessidade de produzir três safras ao ano? Pelo andar da carruagem, logo teremos quem sabe, quatro safras ao ano.

Como leitor do texto acima, a única coisa que passa pela minha cabeça é que estes senhores que opinaram são vendedores de sementes, cujo objetivo é que se plante cada vez mais, logicamente criando a necessidade de mais e mais sementes, inclusive com a recomendação de aumentar a densidade para 18 plantas por metro, na contramão da fisiologia vegetal.

O que os agricultores acabam fazendo é uma lavoura em cima da outra, não dando tempo de realizar recuperação dos solos. Depois do advento do plantio direto ficou ainda pior, pois de vez em quando fazem calagem a lanço, fosfatagem a lanço, potassagem a lanço e qualquer outra “porcaria” a lanço e que contrariam toda técnica do bom uso das ferramentas agronômicas. Tudo que foi aprendido e desenvolvido nos anos e anos de pesquisa e desenvolvimento agrícola é jogado na vala comum do dogma de produzir e produzir a qualquer custo.

Não entraremos no mérito da fertilidade dos solos neste artigo, pois deveremos tratar disto num futuro podcast no nosso site, mas vamos encarar apenas a ecologia: Aprendi na escola quando os cursos de agronomia eram levados mais a sério e os alunos estudavam, que o advento de uma cultura atrás da outra levava a desequilíbrios ecológicos principalmente em relação ao potencial de inóculo de doenças, desequilíbrio de pragas, pois não há o vazio entre lavouras e estas se sustentam indefinidamente no ambiente – vide o que está ocorrendo com Helicoverpas e outras, que antes só comiam milho, agora estão topando qualquer parada. A própria buva que se cuide, ou melhor, a Monsanto que se cuide, pois não haverá nem mato para controlar devido as super pragas. Não é à toa que o nosso país se tornou o maior mercado de agrotóxicos do mundo, mesmo com o preço dos produtos despencando ano a ano. Logicamente as nossas recomendações estão levando a este caos geral. O pior nisto tudo é o aval da classe agronômica, que não discute o assunto, não param para pensar no que estamos transformando o sistema agrícola: uma máquina de produzir plantas, sem se importar com as consequências no futuro e, mesmo no presente, com a degradação contínua dos solos e as consequências econômicas da superprodução e preços do mercado.

Este é um Negócio de Risco.

Dr. José Carlos Vieira de Almeida

Eng. Agrônomo Dr. José Carlos Vieira de Almeida – Doutor em Agronomia. Ex-docente na Universidade Estadual de Londrina e sócio da Laborsolo Laboratórios, especialista em Fisiologia Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: Manejo e controle de plantas daninhas e nutrição de plantas.