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Crise Hidrica

A crise hídrica e a participação do agronegócio

A discussão ao longo do último ano em torno do uso da água pelo agronegócio, e a preocupação em arrumar ‘culpados’ para a falta d’água em diversas regiões do país, tem colocado especialistas de diversas áreas para debaterem a aquisição, o consumo e o desperdício da água nos mais diversos pontos de consumo. O engenheiro agrônomo Maurício Palma Nogueira, coordenador de pecuária da Agroconsult, emitiu recentemente sua opinião, num artigo sensato e que convida os especialistas a pensarem sobre o tema. Leia na íntegra a opinião:

“Especialistas em clima apontam causas cíclicas para a seca na região dos reservatórios e dos cursos d’água que abastecem as principais capitais do sudeste. A grande diferença entre a estiagem atual e a de outros anos é que a demanda nas cidades é significativamente maior do que em anos anteriores. Ao longo dos anos, o planejamento urbano deveria ter previsto o redimensionamento de reservatórios, reciclagem de água usada e o controle rigoroso dos desperdícios e das perdas de água tratada. Contou-se apenas com a providência da natureza, negligenciando-se ocorrências que já foram registradas. O resultado de tudo é a situação em que chegamos.

Apesar das causas naturais apontadas por especialistas, grupos de interesse e a mídia se esforçam em apontar culpados. E o alvo de sempre é a agropecuária. Como gostam de bater nos agropecuaristas do Brasil! À medida em que crescia a consciência do quão grave era o problema, aumentava também a quantidade de matérias veiculadas na grande mídia, apontando a produção agropecuária como a grande consumidora e “gastadora” de água do Brasil. Em tese, segundo essa abordagem sensacionalista, não houvesse desperdício de água para produzir alimentos, sobraria água nos reservatórios das cidades. Problema resolvido.

Para embasar suas análises, citam estudos e dados publicados pela FAO, ONU e UNESCO. Tais estudos, no entanto, consideram a evapotranspiração na contabilização da água consumida pela produção agropecuária.

A evapotranspiração é a soma entre a água transpirada pelas plantas com a água evaporada a partir do solo. Essa água pode ter vindo da chuva, do lençol freático ou da irrigação. No caso da irrigação, essa água pode ter sido captada em rios, lagos, represas ou no subsolo (poços artesianos e/ou semiartesianos).

A evaporação do solo é a simples mudança da água de estado líquido para o gasoso. Com o calor do solo, sob o sol, a água vai evaporando.

A transpiração é mais interessante. É o fluxo de água que carrega todos os nutrientes necessários para as diversas demandas fisiológicas da planta. Sem os nutrientes e sem a água, a fotossíntese não poderia ocorrer. Portanto, não haveria planta e nem produção. Essa absorção de água não pode parar.

Como a planta não armazena toda a água que retira, a transpiração também não pode parar; a maior parte da água absorvida é transpirada. Esse fluxo também é essencial para regular a temperatura da planta.

Num hectare com milhares de plantas, dependendo da cultura, o volume de água evapotranspirado é enorme. Daí vem os montantes assustadores apresentados. Ao leigo no assunto, confiante nas informações que recebe pela televisão, cria-se a falácia de que essa água competiria com o abastecimento das cidades. E é o contrário, pois a evapotranspiração é justamente um dos maiores benefícios existentes na natureza. É ela que permite a formação de umidade que se precipitará em novas chuvas.

Tabela de Estimativa de Uso de Água por KG de Produto

Produtos Litros de Água por Kg de produto
Batata 160
Milho 450
Leite 865
Trigo 1.150
Soja 2.300
Arroz 2.656
Carne de Aves 2.828
Ovos 4.657
Queijos 5.288
Carne Suína 5.906
Carne Bovina 15.977

Fonte: ONU Water Report, elaboração Agroconsult.

O mesmo processo que ocorre nas plantações comerciais ocorre também nas florestas. Um dos benefícios ambientais das florestas é justamente o seu efeito climático com a evapotranspiração. E aí que reside a maior ironia e contradição dos críticos. Atacam a produção agropecuária pelo uso da água e defendem a manutenção de florestas intactas, onde a evapotranspiração é ainda maior. Ou vamos admitir que os cerca de 570 milhões de hectares de florestas preservadas no Brasil sejam os maiores responsáveis pelo “desperdício” de água disponível? Não tem sentido.

É preciso compreender que não se perde água por evapotranspiração; isso é exatamente parte da descrição do ciclo natural da água. Retire toda a agropecuária da área, plante florestas e a evapotranspiração irá aumentar. Retire todas as plantas da área e sobrará apenas a evaporação; criando as condições para a formação de um deserto.

Portanto, na agropecuária, a evapotranspiração está na coluna dos ativos ambientais e não dos passivos. É fundamental entender essa diferença.

Os críticos também cobram que o produtor busque melhorar o desempenho de uso da água pelas plantas. Os mesmos grupos também questionam o uso de defensivos e fertilizantes na agropecuária.

No entanto, além da melhoria genética das plantas ao longo dos anos, a única forma de maximizar o aproveitamento da água pelas culturas agrícolas é aumentando a quantidade de plantas por hectare. Dessa forma, a transpiração será relativamente maior dentro da evapotranspiração. Em outras palavras, a maior parte da água que vai para a atmosfera terá passado por dentro das plantas, e não simplesmente evaporada a partir do solo.

E para manter maiores quantidades de plantas mais produtivas na área em solos tropicais é essencial o uso de defensivos, corretivos e de fertilizantes. Não fosse a adoção desses insumos, a pegada hídrica seria significativamente maior. Mais uma contradição entre os críticos.

Essa mesma desinformação ocorre com a pecuária, que é um ótimo exemplo para detalharmos o uso da água.

Não é difícil encontrar argumentos escritos afirmando que um bife bovino contenha 5 mil litros de água. Apesar do absurdo, muitos acabam automaticamente assimilando essa informação, sem parar para pensar no quão incoerente ela é. Se assim fosse, cada churrasco nos levaria a uma enchente.

Os mais sensatos não acreditam que os cinco mil litros de água estejam ali naquele bife. Mesmo assim, e igualmente equivocados, acabam por acreditar que a produção daquele bife tenha “gasto” ou consumido os 5 mil litros de água.

No entanto, os verbos gastar e consumir denotam extinção, fim, destruição, anulação etc. E o uso da água não a leva à exaustão. Pelo contrário, o uso da água ocorre dentro de um ciclo natural em que a água vai simplesmente mudando de lugar, participando de diversas reações e em estados físicos diferentes: líquido, gasoso e até sólido.

A água estará no lençol freático, na capilaridade do solo, na planta, no bebedouro, no animal, nas excretas e na atmosfera, tenha ela sido evaporada ou transpirada. Depois, na forma de chuva ou granizo, retorna ao solo, iniciando novamente seu ciclo.

A água não se perde, não se gasta, não se exaure. Ela se transforma a todo o momento. Cabe ao homem transformá-la com responsabilidade. Portanto, a produção agrícola não gasta água; a produção usa água.

A pecuária também não usa apenas a água que o bovino ingeriu. A pecuária usa a água para a produção de alimentos que o boi irá consumir. O volume de água na evapotranspiração das pastagens é significativamente maior do que o consumo de água durante toda a vida dos animais que foram naquela área.

Além da evapotranspiração das pastagens, ou forragens em geral, inclui-se também no cálculo a água usada nas áreas agrícolas que produzirão os concentrados para alimentar os animais.

Imaginem então a água ao longo de toda a cadeia agroindustrial da carne, desde a produção dos insumos até chegar ao consumidor final.

Há necessidade de muita água para se produzir um quilo de carne. Por isso que a pecuária de corte é considerada uma das menos eficientes no uso da água, conforme os dados da tabela. Observe que, de acordo com o relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), são necessários quase 16 mil litros de água para se produzir um quilo de carne bovina. Tal número nos leva aos 5 mil litros por bife de cerca de 300 gramas. Novamente, vale ressaltar que essa água foi usada e não gasta.

Finalmente, outra contradição dos críticos é a afirmação de que a agropecuária usa água tratada para o consumo urbano. Salvo raras exceções de culturas hortícolas e fruticultura irrigada em regiões próximas de grandes centros urbanos, nenhuma água usada na agricultura é oriunda do tratamento destinado ao uso urbano.

E mesmo a licença para os projetos de irrigação só são liberados mediante análise do modelo da captação de água e eventual impacto em comunidades ou outros produtores.

Voltando à questão do uso da água com responsabilidade, maiores benefícios seriam colhidos pela humanidade se a preocupação fosse educar as populações urbanas a descartar adequadamente seu lixo e a tratar seu esgoto.

Isso também inclui aquele formador de opinião, com consciência ecológica, que vive na cidade. Mais cômodo para ele, no entanto, é continuar colocando a culpa no agropecuarista, responsável por uma atividade que limpa a água que foi suja na cidade ou nas indústrias. Alguém conhece algum filtro mais eficiente do que a evapotranspiração?

É fato que toda a origem do problema da escassez de água está nas cidades e não no campo. É uma questão de planejamento e orientação quanto ao uso da água. Culpar o setor agropecuário por um problema causado nas cidades é tapar o sol com a peneira.

E, pior, caso medidas populistas sejam tomadas dificultando a produção rural, isso apenas somará a falta de alimentos à escassez de água. E escassez implica em inflação.”

Publicado originalmente em Portal FLFF.

Laborsolo Laboratórios

A Laborsolo Laboratórios atua a quase 30 anos com Análises Agronômicas. Nosso portfólio é amplo (solo, folha, alimento animal, água, fertilizantes e corretivos) e estamos focado no desenvolvimento de tecnologias que auxiliem no dia a dia do Agronegócio.

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