Necrose Soja

E agora, o que pode acontecer com a soja quando voltar o sol?

Depois de toda chuva dos últimos dias e dos problemas de encharcamento e anaerobiose radicular, viram-se os efeitos pela queda de vagens e folhas principalmente na região oeste do Paraná e algumas regiões no Mato Grosso.

O fato sobre a queda das vagens foi bem explorado e bem explicado por algumas pessoas se referindo ao desequilíbrio de reguladores de crescimento, principalmente o etileno, ácido abscisico e citocininas. Devido à anaerobiose deve ter havido ainda uma deficiência na absorção de íons, principalmente cátions levando ainda a um desequilíbrio nutricional, além dos fatores totalmente abióticos com o excesso de chuvas.

Bem, agora as chuvas estão cessando e o que se deve esperar?

Muito provavelmente deverá ocorrer necroses generalizadas principalmente em folhas mais jovens ou ainda sintomas muito parecidos com falta de água sendo confundido com sintomas de seca.

O que de fato ocorre é que devido ao excesso de chuvas deve ter ocorrido uma diminuição do tamanho das raízes principalmente nas áreas onde há compactação do solo que, além da água favorecendo a expulsão do oxigênio, o solo compactado tem menor porosidade total, levando a condições mais estressantes de anaerobiose radicular. O que pode ocorrer nestas situações é o favorecimento de um ambiente fermentativo, uma vez que os carbohidratos advindos da parte aérea em direção as raízes sofrem um processo parcial de respiração. Isto é, a glicose sofre uma oxidação parcial até ácido pirúvico no citoplasma, no entanto, para a formação de ATP que é o resultado final da respiração é necessário oxigênio que é o aceptor final de elétrons na cadeia de transporte eletrônico ou fosforilação oxidativa após o ciclo dos ácidos tri carboxílico ou ciclo de Krebs.

Para piorar houve, neste tempo todo, dias nublados, sendo que nestas condições duas coisas básicas devem ocorrer. Primeiro, a fotossíntese líquida deve ser diminuída, pois em baixa intensidade luminosa os comprimentos de ondas necessários para atingir as clorofilas devem sofrer diminuição, pois as plantas tinham se desenvolvido a luz plena e sua cutícula deveria estar em boas condições dada à luz inicial. Este fato em ecofisiologia é tratado como “foto morfogênese”, ou seja, o aparecimento da forma em função da luminosidade. Assim, as folhas iniciais foram formadas em função da luminosidade da época de sua gênese. Como havia luz, provavelmente se desenvolveram para suporta-la, suas cutículas então eram bem tolerantes a esse estresse. Em segundo lugar, a falta de luz provocou o aparecimento de folhas com cutículas menos espessas durante o déficit de luz por ocasião das chuvas, o que é de se esperar em baixa luminosidade no sentido de se conseguir fazer a fotossíntese mesmo nestas condições. Daí as folhas mais novas diferenciadas durante as chuvas devem ser mais tenras com menos deposição de cutina que é o principal fator de tolerância à luz, principalmente à luz ultravioleta. Mais um agravante, o principal protetor bioquímico de defesa em relação à luz é o caroteno, que tem a função (grosso modo) de filtrar a luz azul para proteger as clorofilas sob altas intensidades luminosas. Só que em condições de dias nublados a produção de carotenos é compremetida, uma vez que, seu precursor é o gliceraldeido 3 fosfato, um metabolito da fotossíntese. Ou seja, sem fotossíntese, sem caroteno. Como devido à baixa insolação, a fotossíntese foi comprometida, consequentemente a síntese de carotenos também.

Agora esta pronta a receita para o caos.

As plantas após o estresse pelo excesso de água devem ter sido prejudicadas pela baixa absorção iônica, levando a déficit nutricional, fermentação radicular, desequilíbrio de reguladores (fito hormônios), e o que é mais grave e intenso, baixa produção de carbohidratos principalmente sacarose e glicose que são os produtos finais da fotossíntese.

O sol voltou, as cutículas foliares estão finas, a concentração de carotenos é baixa, as raízes estão prejudicadas pelo grande tempo em anaerobiose, as taxas de acumulação de carbohidratos radiculares está baixa, dado a baixa taxa respiratória, mas, no entanto, o sol voltou e vai fazer fotossíntese.

No processo fotossintético ocorrerá a fotólise da água com consequente formação de oxigênio livre e elétrons livres. Como as raízes estão debilitadas a demanda por carbohidratos ainda está baixa, consequentemente esta baixa demanda por carbohidratos, por feedback regula o consumo de ATP e NADPH pelas raízes que por estarem estressadas não os demanda. Então : O que o sistema entende?

Se não se necessita carbohidratos, é de se esperar que a fotossíntese pare. No entanto, a luz agora esta presente. A simples presença de luz leva à fotólise da água liberando elétrons e oxigênio. Como não há demanda, para onde vão os elétrons?

Desgraçadamente o único caminho para os elétrons gerados, é serem captados pelo oxigênio oriundo da própria fotólise. O oxigênio que reage com um elétron livre passa a ser um radical livre conhecido como oxigênio super óxido.

As plantas até possuem um sistema de defesa natural através da enzima Super oxido dismutase, no entanto, nas condições de alto estresse, esta enzima é prontamente saturada não conseguindo proteção eficaz.

O oxigênio super óxido formado necessita ser atenuado e para tanto precisa de hidrogênio no sentido de produzir água que é inerte. Para tanto o oxigênio superóxido vai retirar hidrogênio dos ácidos graxos das membranas plasmáticas através de uma reação chamada peroxidação de lipídeos, levando à destruição das membranas provocando a extrusão do conteúdo do citoplasma.

O que veremos então?

Necrose generalizada, dando a impressão de falta de água ou de alguma doença. Este sintoma não tem absolutamente nada a ver com doenças, portanto, segurem os fungicidas.

No entanto, em áreas onde os solos não estão compactados espera-se que o sistema recupere a aeração mais rapidamente minimizando os efeitos que as raízes sofreram durante o estrese hídrico.
Nestas condições não há muito o que fazer. Não existe remédio milagroso para foto oxidacão.

Em última analise: A luz mata a planta.

Dr. José Carlos Vieira de Almeida

Eng. Agrônomo Dr. José Carlos Vieira de Almeida – Doutor em Agronomia. Ex-docente na Universidade Estadual de Londrina e sócio da Laborsolo Laboratórios, especialista em Fisiologia Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: Manejo e controle de plantas daninhas e nutrição de plantas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *